
Mundial de Rally: Ford Raptor T1+ faz corrida de estreia na América do Sul
Equipada com um brutal motor V8 Coyote 5.0 e suspensão de competição, ela é a expressão máxima do DNA off-road da família Raptor


Sou piloto desde os 8 anos de idade. Lá se vão mais de 30 anos de carreira nas pistas. E que jornada incrível de pioneirismo na Fórmula Indy, na Indy Lights, na Fórmula Renault, na Fórmula 3, nas 500 Milhas de Indianápolis e ainda disputei seis temporadas da Stock Car.
Desde 2023, venho competindo na Copa Truck, onde também fiz história como a primeira mulher a vencer na categoria. Mas agora, posso adicionar mais um capítulo inédito a essa trajetória: tornei-me a primeira mulher a vencer uma etapa do Campeonato Brasileiro de Rally Raid, conquistando o lugar mais alto do pódio na categoria Carros do Rally Jalapão 2026.


Com um nível técnico altíssimo, a 12ª edição do Rally Jalapão foi um verdadeiro teste de fogo. Foram mais de 1.300 km de percurso severo entre as cidades de Palmas, Lizarda e São Félix do Tocantins. Enfrentei esses quatro dias de prova intensa ao lado do experiente navegador Beco Andreotti. Juntos, cruzamos a linha de chegada com o tempo acumulado de 11h11m07s69, pilotando o protótipo Ford Ranger da equipe Sizmic Racing, equipado com o potente motor Ford V8 5.0.
A verdade é que eu não tinha experiência prévia em rally. Para mim, o maior desafio foi encarar o desconhecido absoluto, e ainda por cima sem nenhum contato anterior com o carro que eu estava pilotando pela primeira vez.

Posso garantir que foi extremamente desafiador. Passamos por trechos diários de cerca de 200 km com uma enorme variação de terreno, de lama a pedras e muita areia fofa, o que altera completamente o comportamento da picape a cada quilômetro.
Além disso, as armadilhas do trajeto exigiam atenção redobrada, com curvas coladas a barrancos ou pedras gigantescas no caminho. E, como pilotos, estamos sempre buscando o limite.
“Passamos por trechos diários de cerca de 200 km com uma enorme variação de terreno, de lama a pedras e muita areia fofa, o que altera completamente o comportamento da picape a cada quilômetro.”

Por conta disso, no primeiro dia terminei mental e fisicamente exausta. Mas no segundo dia o cenário mudou. A experiência acumulada, o maior conhecimento do carro e a confiança crescente me permitiram evoluir. A cada etapa, melhoramos nossa performance e afiamos meu entrosamento com o Beco. Foi uma jornada difícil, sem dúvida, mas também incrivelmente divertida.


Rally de verdade não acontece sem alguns perrengues. Na etapa maratona, onde a equipe de apoio não pode fazer qualquer intervenção no carro, enfrentamos um problema mecânico no veículo. Eu e o Beco tivemos que colocar as mãos na massa, trocar a peça e realizar a manutenção nós mesmos. Confesso que não tenho muita experiência nisso, já que na Copa Truck a equipe de mecânicos cuida de absolutamente tudo. O importante é que resolvemos o problema e seguimos firmes.
Aliás, minha dinâmica com o Beco foi uma experiência à parte. Cheguei a brincar com ele dizendo que não ia querer ver a cara dele por um bom tempo! Normalmente eu piloto sozinha, mas no rally o navegador fica no seu ouvido o tempo todo, ditando cada comando. A confiança precisa ser absoluta para saber exatamente o que esperar da próxima curva ou do próximo desafio.

No início, focada em acelerar na terra, algumas vezes eu não ouvia o que ele dizia e pedia para repetir. Mas o Beco é um profissional extraordinário. Com 26 anos de estrada, ele é hexacampeão do Jalapão e tetracampeão dos Sertões. Ele é simplesmente fera! Passei a admirar ainda mais os navegadores; como piloto, eu odiaria estar no banco do carona sem o controle do volante. A vasta experiência dele foi essencial para o nosso resultado.
Eu ainda não conhecia o Jalapão. Como a região não possui autódromos, nunca tinha tido a oportunidade de ir até lá. Mas sendo uma apaixonada pelo nosso Brasil, essa foi uma chance única de desbravar o território, e eu fiquei encantada. O local é de uma beleza indescritível! Conseguimos até visitar um dos famosos fervedouros, aquelas piscinas naturais fascinantes na região de São Félix.


Esses momentos de conexão e relaxamento são cruciais em uma competição exigente de quatro dias. Antes da largada, o foco precisa ser total. Minha preparação incluiu cuidados com a alimentação, hidratação constante e alongamentos.
Sempre que possível eu buscava brechas para respirar fundo e relaxar a musculatura, porque a tensão dentro do cockpit é constante. São de duas a três horas de concentração extrema, pilotando uma máquina de quase duas toneladas e um motor Ford de mais de 300 cv em condições extremas. Mas, no fim, consegui me divertir muito.

Em circuitos como o de Interlagos, eu conheço cada milímetro e cada curva de cor. No Jalapão, nosso objetivo principal era simplesmente terminar a prova, evitando cometer loucuras.
Ao final, fiquei impressionada com a robustez da nossa Ranger, capaz de suportar trancos e trechos altamente agressivos. Mas o que mais me marcou foi a vivência completa dessa experiência. Estrear em uma nova modalidade com vitória é maravilhoso, e espero repetir a dose em breve. Sigo à disposição da equipe Sizmic Ford para outras etapas e, quem sabe, planejar a temporada completa do campeonato em 2027!
Bia Figueiredo é piloto profissional