“Depois que aprendi a voar, ninguém me segura”, é como Bárbara Uchôa, 39, ex-aluna do Ford <Enter> — curso gratuito de capacitação em tecnologia para pessoas em vulnerabilidade social desenvolvido pela Ford — define seu atual momento de vida. Se há dois anos ela iniciava o curso de tecnologia com o receio de quem estava há 14 anos longe das salas de aula, hoje transita pelo escritório de uma das maiores companhias de telecomunicações do Brasil com a segurança de quem domina sistemas, dados e, acima de tudo, sua própria trajetória.
O flerte entre Bárbara e a tecnologia começou como uma curiosidade distante, vinda de uma infância onde computadores eram objetos de outro mundo. O ponto de virada veio quando o anúncio de abertura das inscrições para o curso gratuito Ford <Enter> cruzou o caminho de Bárbara: “Achei que me descartariam pela idade”, relembra ela, com 36 anos à época.

Porém, o programa não buscava jovens, mas mentes inquietas e potenciais escondidos. Segundo pesquisa da Ford e Datafolha, 98% das empresas brasileiras enfrentam dificuldades para contratar profissionais de tecnologia, e o Ford <Enter> se propõe a ser, justamente, um catalisador de talentos neste setor por meio de seu curso de tecnologia.
Veio, então, a tão esperada aprovação. O SENAI-SP, instituição parceira onde as aulas são ministradas, tornou-se o porto seguro de Bárbara. Apesar da gana, a absorção do conteúdo não foi fácil no início; chegou a dizer ao professor que desistiria, pois não estava compreendendo certa matéria. “Ele se sentou ao meu lado e falou ‘você só vai sair daqui quando entender’. Ele não desistiu de mim. Ele me enxergou e me viu com um potencial que nem eu mesma via”, relata emocionada.
A transição para o mercado de trabalho foi um choque cultural. Bárbara trabalhava como caixa de mercado e recebia um salário mínimo quando viu sua realidade se transformar ao entrar em uma empresa de telecomunicações como estagiária. Hoje, está efetivada como Analista de TI.

“Depois que aprendi a voar, ninguém me segura”Bárbara Uchôa
Mas a gana de Bárbara não parou por aí. Atualmente, encara a reta final de duas faculdades simultâneas: Engenharia da Computação e Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Sua sede por conhecimento a levou a conquistar diversas certificações na área, além de estudos para dominar ferramentas de softwares após concluir o curso de tecnologia.
O que define a Bárbara de 2026 é a generosidade intelectual. Uma vez por semana atua como voluntária na escola da filha, ensinando Inteligência Artificial para jovens entre 12 e 17 anos: "De graça eu recebi e de graça eu quero dar. É um ciclo", explica. Ela quer encurtar o caminho para que outros jovens periféricos não precisem esperar tanto tempo quanto ela para descobrir que o mundo da tecnologia também lhes pertence.
Portas abertas em casa
Para além de capacitar profissionais para o mercado, o Ford <Enter> também prepara talentos para integrar o quadro de colaboradores da própria companhia. É o caso dos baianos Juan Suzarte, 20, e Acauã Brazil, 18, cujas trajetórias exemplificam como a união entre educação e oportunidades gera frutos. A dupla participou da primeira turma do curso gratuito na Bahia, em 2025, e hoje divide o dia a dia como estagiários na Ford.

Juan desenvolveu seu primeiro sistema aos 14 anos, apresentado à tecnologia por um amigo: criaram um programa escolar para classificar triângulos. O que começou como uma brincadeira ganhou seriedade aos 16 anos, no curso de Desenvolvimento de Sistemas do SENAI. Mesmo tendo se aventurado na área de Química por um semestre, o chamado das linhas de código falou mais alto; então, optou pela faculdade de Ciência da Computação EAD para conciliar os estudos com a prática: "Eu queria tempo para criar meus próprios projetos", explica. E ele criou: de landing pages para empresas a sistemas robustos de RPG.
No curso, além das aulas técnicas, mergulhou nos ensinamentos de soft skills — habilidades cruciais, que levam 37% das empresas a rejeitar candidatos por falta delas, segundo pesquisa da Ford e Datafolha. “No programa, as duas primeiras semanas são de atividades em grupo não relacionadas à programação. Consegui trazer esses aprendizados para o trabalho. Foi maravilhoso”, conta.

Com sede de aprender e retribuir, Juan retornou à cadeira de aluno para a trilha de Back-end, agora já como estagiário na Ford. "Quis voltar para aprender mais e ajudar o pessoal que está começando a entender a lógica. O ambiente do curso gratuito Ford <Enter> favorece muito essa troca", afirma.
Já para Acauã, o curso de tecnologia foi o catalisador que o tirou do isolamento que a programação muitas vezes traz: “O que me surpreendeu foi o networking. Eu vivia numa bolha onde só eu programava; não tinha a experiência de estar numa sala onde todo mundo quer a mesma coisa. Foi enriquecedor ver como outras pessoas resolvem os mesmos problemas”.

Hoje, atuam no desenvolvimento de softwares internos da Ford, criando ferramentas que otimizam recursos e trazem qualidade de vida para o time. Com os olhos no futuro, já projetam o desenvolvimento das carreiras.

As trajetórias de Juan e Acauã realçam que o Ford <Enter> vai além da escola técnica; é um espaço de formação humana. Para os novos alunos, os conselhos de ambos são complementares: "Abraçar as oportunidades do momento” e “Ajudar e ser ajudado. Ser humilde, reconhecer, pedir ajuda quando precisar, mas também ajudar quando houver alguém precisando”.

Manuela Dacca Gorham contribui como redatora do From the Road.






