Skip to content
Marcello Oliveira Avatar
Marcello Oliveira
29.09.26

Como uma Ford F-150 salvou a cobertura das enchentes em 2024

Essa é a história de como uma Ford F-150 salvou a minha cobertura jornalística de uma das maiores tragédias climáticas da história recente do Brasil: as históricas enchentes no Rio Grande do Sul. Era o início de maio de 2024 e eu atuava no jornalismo geral, na televisão. Apesar de cobrir todo tipo de pauta, naquele momento eu estava mais focado no noticiário político. Talvez por isso eu ainda não tivesse a real dimensão do caos que começava a se instalar no estado gaúcho.

A imprensa local já estava completamente mobilizada, mas os veículos nacionais ainda começavam a perceber a magnitude do que estava acontecendo. Até que meu chefe me ligou: “Sabe o que está acontecendo em Porto Alegre?” Na minha cabeça, comecei a puxar pela memória alguma visita presidencial ou algum compromisso de governo do qual eu pudesse ter me esquecido. Antes que eu respondesse ele emendou: “Preciso que você embarque agora de manhã para lá e entre ao vivo de lá hoje à noite.” Foi naquele instante que percebi que a situação era realmente grave.

O fechamento do Aeroporto Salgado Filho e a corrida contra o tempo

Consegui embarcar no voo das 15h daquela sexta-feira. Já estávamos com mais de uma hora de atraso quando o Boeing 737 iniciou o procedimento de táxi no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Éramos apenas 21 passageiros a bordo. O avião chegou à cabeceira da pista. Mas, em vez de acelerar para decolar, continuou se movimentando lentamente e retornou para o portão de embarque. 

Pouco depois, o comandante informou que acabara de receber a notícia oficial: o Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, estava com suas estruturas comprometidas e com a pista completamente alagada. O voo havia sido cancelado. Mal sabíamos que o Salgado Filho permaneceria fechado por meses. E que, naquele domingo, a minha cobertura estaria apenas começando. O link ao vivo que deveria ter sido transmitido de Porto Alegre acabou sendo feito ali mesmo, no saguão de Congonhas. 

O jornalista Marcello Oliveira com a Ford F-150 na cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024

O caminho até Porto Alegre: a rota alternativa por Santa Catarina

Na manhã seguinte, consegui embarcar em outro voo, por uma companhia diferente, rumo a Jaguaruna, no sul de Santa Catarina. Chegando lá, aluguei o último carro disponível na única locadora aberta no terminal e peguei a estrada em direção a Porto Alegre. Uma viagem que normalmente levaria cerca de quatro horas acabou demorando oito. Com muita dificuldade e contornando bloqueios, consegui entrar em Porto Alegre. Fui para o meu hotel, mas antes de me hospedar, parei para abastecer. Gasolina comum? Havia acabado. Etanol? Também esgotado. O posto já tinha vendido praticamente todo o estoque de combustíveis. Restava apenas gasolina Podium no reservatório.

O cerco das águas 

Chegar ao hotel foi uma verdadeira expedição de risco. Ruas interditadas, acessos bloqueados por entulho e correnteza, carros boiando ou abandonados pelo caminho. Moradores caminhavam atordoados, muitos apenas com a roupa do corpo e sem paradeiro definido. Os viadutos urbanos tinham sido transformados em estacionamentos improvisados: eram as raras elevações onde a população ainda tentava salvar seus automóveis do nível do Guaíba.

Em diversos trechos, atravessei com o carro alugado com o nível da água passando do centro das rodas. Finalmente consegui chegar. A fachada do hotel já estava cercada pela cheia, mas ainda era possível entrar e sair pela garagem e pela doca de serviço, que ficavam posicionadas em um ponto mais elevado. Ali estabeleci minha base operacional de cobertura.

Nos primeiros dias, a dinâmica de reportagem ainda fluía dentro do possível. Visitava os abrigos emergenciais, acompanhava os gabinetes de crise da Defesa Civil, da Polícia Militar e dos grupos de voluntários. Realizava entradas ao vivo de vários pontos da cidade e também a partir das instalações do próprio hotel. Até que, no quarto dia, a crise hídrica e estrutural atingiu o ápice.

O jornalista Marcello Oliveira com a Ford F-150 na cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024

Evacuação forçada pelo Exército e a perda do carro

Os elevadores do prédio pararam de funcionar de vez. Durante uma participação ao vivo na grade matinal, registrei a água invadindo o térreo do edifício. Funcionários tentavam erguer barricadas emergenciais para conter o fluxo em direção à recepção, mas a força da enchente venceu. Do lado de fora, a rua havia virado um rio por onde transitavam apenas socorristas e voluntários em jet skis, checando se havia moradores precisando de resgate.

No restaurante do hotel, cercado por amplas vidraças, alguns hóspedes ainda tentavam tomar café da manhã. Do outro lado do vidro, víamos a subida vertiginosa da água. Em determinado momento, o nível exterior já ultrapassava a altura das mesas internas. Uma cena surreal e assustadora.

Ficou evidente que o hotel precisava ser totalmente evacuado. Um caminhão-guincho de chassi alto começou a retirar os veículos dos hóspedes da garagem subterrânea para levá-los a uma área seca. O meu carro alugado era o próximo da fila. Contudo, o nível da inundação subiu tão rapidamente que o guincho não conseguiu manobrar para voltar. Meu carro de apoio ficou submerso e preso ali dentro. Pouco depois, fomos todos resgatados e retirados do local em comboio pelo Exército Brasileiro. Essa operação de evacuação foi inteiramente documentada e virou matéria veiculada no mesmo dia.

O jornalista Marcello Oliveira com a Ford F-150 na cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024
“O compartimento de carga da picape virou a nossa bancada para a montagem de antenas, cabos e do sistema portátil de transmissão via satélite. ”

Consegui vaga em um dos raros hotéis que mantinham operação mínima na capital. Ele ficava situado em frente aos centros de comando integrados do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil, da Polícia Federal e da Brigada Militar. O estabelecimento passou a abrigar os correspondentes e equipes de reportagem de fora do estado que conseguiam acessar Porto Alegre após dias de viagem por rotas secundárias de Santa Catarina ou pela Serra Gaúcha.

O drama do repórter ilhado: como trabalhar sem mobilidade?

Naquele momento, deparei-me com um obstáculo logístico gigantesco: Eu estava em Porto Alegre. Tinha equipamento. Tinha estrutura para transmitir. Tinha uma das maiores histórias jornalísticas da minha carreira acontecendo do lado de fora. Mas não tinha mais um carro. Naquela Porto Alegre devastada, um jornalista sem carro não conseguia exercer sua função. O transporte público estava paralisado. Encontrar táxis era uma tarefa quase impossível. Veículos de aplicativo não circulavam e a malha viária estava recortada por bloqueios e alagamentos profundos. Minha capacidade de apuração estava encolhida ao perímetro que eu conseguia cobrir a pé a partir da porta do hotel. Psicologicamente, cheguei a pensar que a minha missão ali havia chegado ao fim.

A chegada da Ford F-150

Eu vinha relatando os bastidores e os impactos da tragédia tanto nos boletins da TV quanto em tempo real nas minhas redes sociais. Foi quando um representante da Ford viu meus stories no Instagram e entrou em contato prestando apoio e solidariedade. Comentei sobre a situação: seria fundamental encontrar algum veículo de frota corporativa disponível em Porto Alegre, já que as locadoras estavam inoperantes e grande parte de seus carros — inclusive as frotas dos aeroportos — estava debaixo d’água. Esperar que a emissora enviasse uma viatura terrestre a partir de São Paulo demoraria dias preciosos. A resposta veio em seguida: “Nós temos uma caminhonete aí.”

O jornalista Marcello Oliveira com a Ford F-150 na cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024
O jornalista Marcello Oliveira com a Ford F-150 na cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024

Havia uma Ford F-150 em uma concessionária da marca instalada em um bairro alto de Porto Alegre, milagrosamente poupado pelo transbordamento. Em outras regiões da cidade, concessionárias inteiras tinham sido engolidas pela correnteza, perdendo centenas de carros zero-quilômetro no pátio. Depois de articular caronas solidárias com voluntários e achar um dos raros motoristas de aplicativo que ainda se arriscavam nas ruas secas, consegui chegar ao local. Lá estava ela: uma imponente Ford F-150 Platinum 2024.

Lembro com clareza da sensação de alívio e gratidão daquele momento. A empolgação não decorria apenas do privilégio de guiar uma picape daquele porte, mas sim pela certeza de que eu poderia voltar a trabalhar e continuar informando a população. A cobertura estava salva. E não se tratava de um automóvel qualquer: era uma picape full-size, com elevado vão livre em relação ao solo, robusta, com tração 4x4 e força suficiente para trafegar em um cenário onde veículos convencionais não tinham a menor condição de rodar.

Nos dias seguintes, constatei que a F-150 não apenas devolveu a minha mobilidade por aquela metrópole ilhada: ela ampliou consideravelmente o nosso raio de alcance jornalístico. Havia trechos tomados por lamaçais espessos, correntezas residuais e acessos intransponíveis para carros de passeio. Foi assim que a picape da Ford transcendeu a função de mero carro de reportagem: ela virou parte ativa dos esforços operacionais da cidade.

Muito além da notícia: missões de resgate e apoio humanitário

Em determinada ocasião, fomos a um grande centro de triagem da Defesa Civil encarregado de concentrar os donativos que chegavam de todo o país. O volume de suprimentos, água potável e cestas básicas era imenso, mas havia um gargalo severo de distribuição para transportar essas cargas até os locais mais isolados. Carregamos a caçamba da F-150 com donativos até o limite e ainda engatamos dois botes infláveis de salvamento na traseira.

“A picape da Ford transcendeu a função de mero carro de reportagem: ela virou parte ativa dos esforços operacionais da cidade.”
O jornalista Marcello Oliveira com a Ford F-150 na cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024

Essas embarcações foram lançadas nas águas para conseguirmos acessar bairros residenciais totalmente submersos. Levamos equipes médicas para prestar assistência emergencial a famílias que estavam ilhadas havia dias nos segundos andares de suas casas. Navegávamos sobre avenidas onde, em dias normais, o trânsito fluía. Em certos bairros, viam-se apenas as telhas e as cumeeiras das residências. Nos prédios, somente os andares superiores permaneciam secos. Havia pessoas aguardando socorro no escuro e no frio por dias consecutivos. Nos showrooms automotivos pelo caminho, dezenas de veículos novos flutuavam contra as vitrines quebradas.

Graças à tração e à altura da caminhonete, conseguimos alcançar bolsões que outros colegas de imprensa ainda não haviam conseguido documentar. E quanto mais a apuração avançava, menos aquele trabalho se parecia com uma rotina jornalística burocrática. A dimensão da crise humanitária sobrepunha-se a qualquer formalismo. Hoje sabemos oficialmente que a tragédia climática ceifou a vida de 184 pessoas e impactou diretamente milhões de famílias gaúchas. 

Os abrigos públicos operavam acima da capacidade máxima. Ao mesmo tempo, era comovente ver a mobilização de brigadas voluntárias vindas de todos os cantos do Brasil. Eu bebia água fornecida pelas cozinhas comunitárias, almoçava "quentinhas" ao lado dos voluntários e compreendi que, dispondo de uma ferramenta com tamanha capacidade de carga e tração quanto a F-150, seria inaceitável utilizá-la exclusivamente para deslocamentos pessoais. Sempre que a caçamba tinha espaço vago, enchíamos de mantimentos. Se surgia a urgência de transportar pessoas debilitadas ou socorristas, nós os levávamos. Onde houvesse alguém necessitado e a estrada permitisse, a F-150 chegava.

O estúdio móvel: transmissões ao vivo em áreas críticas

Até as nossas entradas ao vivo na TV ganharam outra dinâmica. Com a tração integral 4x4, passamos a posicionar nossa equipe nas regiões mais afetadas, transmitindo de lugares onde quase nenhum outro repórter conseguia chegar. O compartimento de carga da picape virou a nossa bancada para a montagem de antenas, cabos e do sistema portátil de transmissão via satélite. Uma dessas transmissões ocorreu nas cercanias do Estádio Beira-Rio, uma das áreas mais castigadas da orla do Guaíba.

Naquele mesmo dia, recebi a incumbência de entrar ao vivo para um programa de cobertura esportiva, mostrando os prejuízos e o estado em que ficaram as sedes de Grêmio e Internacional. Logo antes do início da transmissão, um temporal desabou sobre a cidade. Sem condições climáticas de operar com os equipamentos sob a chuva torrencial, montei a posição e realizei toda a entrada ao vivo de dentro da cabine da F-150. É um daqueles momentos de bastidor que ficam marcados na memória.

O jornalista Marcello Oliveira com a Ford F-150 na cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024

Naquele cenário de calamidade, aquela picape tinha se transformado em muitas coisas ao mesmo tempo: viatura de reportagem, transporte de carga, antena de transmissão, distribuidora de ajuda humanitária e a única ponte terrestre até pessoas isoladas.

O valor da solidariedade e da mobilidade em meio à crise

Foram vários outros dias de cobertura contínua a bordo da picape. Dizer que a F-150 apenas “ajudou” na realização das reportagens não expressa a realidade dos fatos: o veículo salvou a cobertura jornalística. A lembrança mais nítida que guardo daquela tragédia não diz respeito à violência das águas ou aos cenários de destruição; diz respeito à força da solidariedade humana. 

Por isso, quando me recordo daquela F-150, não me vem à mente apenas um veículo cedido por uma montadora de automóveis. Eu me lembro do instrumento de trabalho que me devolveu a voz e a mobilidade para seguir apurando a verdade quando eu supunha que não conseguiria mais cumprir meu papel profissional por falta de locomoção.

Lembro do carro que garantiu que os equipamentos chegassem aos pontos mais difíceis para que milhões de telespectadores e leitores compreendessem a gravidade da situação. Lembro da picape que carregou cestas básicas, rebocou os botes com médicos e socorristas e desbravou trechos intransponíveis da cidade. E que, no momento mais desafiador da minha trajetória no jornalismo, garantiu que eu pudesse cumprir o dever primeiro de todo repórter diante de uma tragédia histórica: estar presente.

Marcello Oliveira é jornalista especializado e repórter de TV.