Minha mãe conta que a minha primeira palavra não foi "mamãe" nem "papai". Foi "cá". Eu tinha poucos meses de vida, mas já apontava desesperado para a rua a cada veículo que passava. Eu estava tentando dizer "carro". Conforme fui crescendo, meu mundo passou a girar sobre rodas: meus brinquedos eram todos carrinhos, eu decorava os logotipos das marcas e os nomes dos modelos, lia as placas dos carros e sabia detalhes que poucas crianças da minha idade conheciam.
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Mas a paixão pela velocidade não cresceu sozinha. Aos 7 anos, por incentivo da minha família — todos são músicos e tocam algum instrumento —, entrei para o Conservatório de Tatuí para estudar violino. O instrumento logo se tornou um grande companheiro.
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A escolha entre a música clássica e a engenharia automotiva
Nunca tive dúvidas sobre o que queria fazer da vida: tinha de ser algo relacionado a carros. Porém, aos 16 anos, estava diante de uma decisão difícil: de um lado, uma bolsa de estudos voltada à carreira na música clássica e, portanto, a possibilidade de ganhar meu primeiro salário; do outro, a paixão pela engenharia automotiva e por dirigir. Pensei: "Gosto muito de violino e música, mas preciso seguir meu coração — preciso fazer o que amo".
“Nunca tive dúvidas sobre o que queria fazer da vida: tinha de ser algo relacionado a carros”
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O resultado? Não cheguei a me formar no Conservatório e decidi seguir a carreira de engenharia, mirando a indústria automobilística. Mas o violino jamais saiu da minha vida. Ele continua sendo um refúgio e meu companheiro — até hoje me apresento em casamentos e momentos especiais, além de fazer parte da orquestra da igreja.
A minha ligação com a Ford também vem de berço. Aprendi a dirigir no carro do meu pai, uma F-1000 de 1987 transformada pela Engerauto (inclusive, esta foto foi tirada neste exato dia!). Como sou natural de Tatuí (SP), cresci olhando para os portões do Centro de Desenvolvimento e Tecnologia da Ford na cidade, com o sonho de um dia trabalhar lá.
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Aos 20 anos, em 2010, o sonho se tornou realidade. Cursei Engenharia Mecânica e entrei na Ford como estagiário na área de NVH (Noise, Vibration and Harshness / Ruídos e Vibrações) por intermédio de Osías Caires, sogro da minha irmã e, na época, controlador de testes de Durabilidade.

Isso me abriu oportunidades únicas na vida, pelas quais sou extremamente grato a todos os envolvidos — amigos e colegas de trabalho, minha liderança e o time com quem trabalho. Ter a oportunidade de participar do projeto dos próximos carros da Ford e influenciá-los fascina-me diariamente.
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Tempos depois, aproximei-me dos testes de Dinâmica Veicular e, em 2022, conquistei a certificação de Piloto Tier 3 — os pilotos na Ford são divididos em 4 categorias, que definem os limites de atuação em pista. Sob a mentoria do experiente piloto Tier 4 Luis Gozzani — a quem sou muito grato —, aprendi que o treinamento de um piloto nunca termina: é uma busca constante pela evolução e pela perfeição, assim como na música.
O que o violino e a pilotagem têm em comum?
Hoje, minha rotina envolve engenharia, testes de pista, treinamento de novos motoristas e pilotos, organização de eventos de demonstração de carros à imprensa e ao público, além de direção de precisão em demonstrações de capacidade dos veículos da Ford e filmagens — sem nunca perder o foco na segurança das pessoas e das maravilhosas máquinas que tenho a oportunidade de conduzir.


Entre muitas aventuras, tive a honra de fazer parte do time que realizou as apresentações no Red Bull Showrun em Curitiba e na comemoração dos 60 anos do Mustang, além de executar centenas de saltos com a Ford Ranger Raptor. Já fizemos de tudo — desde eventos para a imprensa especializada até grandes acontecimentos para o público, como a etapa do WEC (World Endurance Championship) no circuito de Interlagos. À primeira vista, o violino e a pista parecem mundos distantes, mas compartilham a mesma essência, e muito do que executo hoje ao pilotar no limite tem um paralelo na música.

A busca pela nota — e pela volta — perfeita
Além da paixão — afinal, é preciso gostar do que se faz —, estudar constantemente é fundamental. Na música clássica e na pista, nem tudo sai como queremos na primeira tentativa. Há momentos de frustração em que o som não sai limpo ou a manobra exige ajustes. É por isso que a dedicação é indispensável em ambos os casos. A resiliência nos ensina a insistir e, com treino contínuo, o resultado sempre vem. Não existe "quase bom" nem na música clássica, nem na condução de veículos no limite do controle — a exigência é exatamente a mesma.
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Sem margem para erros
Na pilotagem de testes, às vezes precisamos repetir voltas com tempos e dinâmicas praticamente idênticos, como se fossem compassos de uma música. Assim como na execução de uma partitura clássica, a margem de erro em manobras de alta precisão é praticamente nula. No Red Bull Showrun, por exemplo, o espaço para realizarmos as manobras era restrito; por isso, precisávamos saber exatamente o que cada piloto faria, e a sincronia precisava ser impecável — basicamente uma orquestra sinfônica de pneus, cilindros, gasolina, escapamentos, pilotos e muito contraesterço.
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Ouvido aguçado para os ruídos
O treino auditivo do violino deu-me uma sensibilidade ímpar para diagnosticar pequenos ruídos ou vibrações anômalas em componentes mecânicos durante a rodagem e, em muitas ocasiões, acelerar o diagnóstico de um problema. É preciso saber distinguir o ruído de um coxim do barulho de uma caixa de filtro de ar mal encaixada; identificar se a ressonância é causada pelo escapamento ou pelo sistema de admissão; e diferenciar se o ruído vem do vento ou do pneu.
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Esse ouvido apurado, desenvolvido por meio do estudo da música, é essencial na área de Ruídos e Vibrações em que atuo, no Centro de Desenvolvimento e Tecnologia de Tatuí. Vale destacar também que essa percepção aumenta o nível de segurança durante a execução de manobras em alta velocidade ou sob grandes acelerações laterais, nas quais os ruídos podem revelar muito sobre o quão perto o carro está de seu limite.
Memória muscular e segurança absoluta
Quando se começa no violino ou na pilotagem, pensa-se em cada movimento de forma consciente. Com o treino e a repetição contínua, esses comandos passam para o subconsciente: transformam-se em memória muscular.
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É essa memória muscular que me permite realizar manobras exaustivamente treinadas, como as centenas de saltos que fiz com a Ranger Raptor em testes de limite de controle, ou levar convidados para uma volta rápida em Interlagos, conversando calmamente e explicando a manobra em tempo real enquanto o carro derrapa, acelera ou salta. Mesmo quando os movimentos estão no "piloto automático", a segurança nunca é deixada de lado — esse cuidado já acontece de forma natural. Por exemplo, já realizamos mais de 500 saltos sem registrar uma única ocorrência. Parte do meu trabalho nas pistas é garantir que continue assim.
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Seja segurando o arco de um violino, seja ao volante de um ícone da Ford em Tatuí ou em um autódromo, sou grato por unir arte, precisão e engenharia em cada curva da minha trajetória. No palco, o arco é a extensão do meu braço; na cabine, meu arco é o volante.
Guilherme Viana é um feliz engenheiro e piloto de testes da Ford.





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