Venho de uma família apaixonada por carros, desde pequena meu mundo era acompanhar a Fórmula 1 e corridas. Mas nunca imaginei que fosse me apaixonar pelo Ford Mustang e, muito menos, que faria história como a primeira presidente mulher do Mustang Clube de São Paulo (MCSP), instituição com 25 anos de estrada e mais de 770 sócios.
Nem tudo o que acontece precisa ser planejado e a minha trajetória com o Mustang prova que às vezes o destino simplesmente se apresenta. A primeira vez que vi um de perto foi em 1995, na Marginal, em São Paulo. Era um modelo amarelo vibrante e pensei: “Que supermáquina é essa?”. Meu pai era rígido e tive de batalhar muito para conquistar meu primeiro carro. Naquela época, o Mustang era algo impensável.
“O Mustang é um carro que tem cultura. Gosto de viver esses momentos. Às vezes, dirigir até o interior para um café é suficiente para renovar minhas energias e salvar o fim de semana.”


Presente inesperado: meu primeiro Mustang
Uma curiosidade da minha vida é que nasci em 26 de dezembro. Por ser logo após o Natal, meu aniversário muitas vezes passava batido (até hoje). Quando eu tinha 7 anos, meu pai esqueceu a data e, para compensar, disse que eu podia escolher qualquer presente. Apaixonada por futebol, pedi um uniforme do Palmeiras. Ele, corintiano fanático, deu o braço a torcer e me presenteou com o kit completo.
Anos depois, a história se repetiu com meu marido, Carlos. Ele é um colecionador inveterado de miniaturas – tem mais de 3.000, a maioria Mustangs de diversas épocas. Em 2011, ele também se esqueceu do meu aniversário. Para se redimir, fez uma promessa ousada: “Vou te dar um Mustang Mach 1, igual à miniatura que tenho desde criança”.
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Minha resposta foi imediata: se é para ter um Mustang, tem de ser um Shelby azul com faixas brancas. Embora seja um modelo raro no Brasil, encontramos um exemplar 2012, zero quilômetro, com um importador independente. Foi meu primeiro Mustang.



Com o Shelby na garagem, me vi diante de um novo mundo. Comecei a buscar outras pessoas com a mesma paixão e foi assim que descobri o Mustang Clube de São Paulo (MCSP).
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“Minha garagem ficou pequena, mas quando perguntam se eu penso em me desfazer de algum deles, digo: Mustang a gente não vende, é puro investimento na felicidade.”
Quebra de paradigma: uma mulher presidente do Clube do Mustang
O MCSP foi fundado por dois amigos apaixonados por Mustang, em 2001. Três anos depois, foi registrado e cresceu. Quando eu entrei, todos os anos aconteciam os mesmos eventos repetidamente. Estava perdendo o sentido e comecei a sugerir ideias, que no início não foram aceitas. “Quando você for presidente do clube, faça do seu jeito”, diziam. Até que em uma eleição me convidaram para ser presidente.

O estatuto previa só presidente e vice, com mandato de cinco anos. Eu e um amigo sugerimos a alteração do estatuto para incluir um diretor social e reduzir o mandato para dois anos, para ter mais pessoas ajudando e equilibrar o tempo dos dirigentes. As mudanças foram aceitas e fizemos uma chapa com o Marcelo Simionato presidente e eu como diretora social. Nessa gestão, fizemos avanços significativos e, na eleição seguinte, fui eleita presidente.
Com o lançamento oficial do Mustang no Brasil, em 2018, o número de sócios cresceu significativamente e a chegada dos novos modelos trouxe ainda mais vida às lendas.
Nós promovemos em média dois eventos por mês, sem repetir lugar, participamos como convidados de eventos como os Mustang Days e realizamos encontros em parceria com o Mustang Clube do Paraná. Há também outros grupos de fãs em Joinville, Maringá, Londrina, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia que costumam marcar presença no nosso encontro anual em agosto, em São Paulo.

Minha dedicação ao clube cresceu naturalmente. Ser a primeira sócia mulher me trouxe desafios em um ambiente até então desconhecido e liderar essa associação com centenas de sócios apaixonados foi uma quebra de paradigma no meio antigomobilista e esportivo.

Santuário na garagem: minha coleção de Mustang
Hoje, minha garagem é um santuário desse ícone da Ford. Além do emblemático Shelby GT 2012, a coleção reflete diferentes eras do modelo. Meu segundo Mustang é um Mach 1 laranja, que também comprei zero quilômetro.
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Tenho dois filhos, Antônio Carlos, de 19 anos, e Carlos Roberto, de 16, e para trazê-los nos eventos e prepará-los para um futuro legado estava em busca de um conversível. Encontramos o GT 2006 preto com faixas pratas em uma exposição em Lindóia e o meu filho mais novo disse: “Esse vai ser meu”. É o terceiro da coleção.
Meu quarto Mustang é o GT 2018 personalizado, um projeto que virou realidade e frequentemente marca presença em eventos oficiais. Ele tem cores exclusivas, carroceria verde com faixas brancas e vermelhas, a cruz de Savóia nas laterais, o número 18 nas portas (referência ao ano), faróis de LED e cinto customizado. Sob o capô, além de um pacote de preparação BTS-600, traz o escudo do meu time pintado na tampa.
O quinto é um GT manual cinza, o exemplar número 163 da série limitada de 200 unidades, outro clássico. E o próximo já está definido: um Mustang Dark Horse. Minha garagem ficou pequena, mas quando perguntam se eu penso em me desfazer de algum deles, digo: Mustang a gente não vende, é puro investimento na felicidade.
Grandes momentos: a alma do Mustang
Para mim, o Mustang é um símbolo de conquista e de união. No clube, reforçamos que não importa o ano ou o modelo – do clássico 1964 aos lançamentos –, o que nos move é a paixão de dirigir um carro que tem alma.
Mais que um carro, o Mustang é um elo. Reunimos empresários de personalidades marcantes, que prezam pela essência e não pelos negócios. A seleção é rigorosa e o foco é a amizade.
É uma história feita de grandes momentos, como a comemoração dos 50 anos do Mustang em Charlotte, nos EUA, e as visitas frequentes à NASCAR para encontrar Joey Logano. Mas nada supera a festa de 60 anos em Interlagos. Ver 400 Mustangs na pista foi surreal. Outro orgulho foi sermos o primeiro clube do Brasil a visitar a fábrica de Flat Rock, em Detroit.
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Perpetuação do legado
O Mustang é um carro que tem cultura, décadas de história. E quando você começa a conhecer e descobrir esse mundo, se apaixona. Ele se tornou uma marca própria dentro da Ford, porque é único. Sentar ao volante e ganhar a estrada é uma experiência quase indescritível. Gosto de viver esses momentos. Às vezes, o simples ato de dar a partida e dirigir até o interior para um café é suficiente para renovar minhas energias e salvar o fim de semana.
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Aqueles que desenharam as primeiras linhas deste ícone já não podem ver o que ele se tornou, mas seu espírito continua vivo em cada ronco do motor nas pistas. A sua obra se transformou em uma lenda capaz de unir milhares de apaixonados pelo mundo todo.
Apesar do Mustang ser um carro soberano no mundo dos V8, não conheço nenhum dono que trate isso com arrogância. Por isso também ele consegue abranger um público tão diversificado. Estamos trazendo essa cultura para a nova geração. Acho que essa paixão pelo carro tem de continuar quando não estivermos mais aqui.








Para isso, temos muitos planos, como a construção de um museu para expôr os carros e deixarmos registrada nossa história. Ao mesmo tempo, estamos fortalecendo as parcerias. Em 2024, ajudamos a fundar a Federação Latino-Americana de Mustangs, para reunir os fãs da região e celebrar. O primeiro congresso foi no México, o segundo no Chile e este ano será na República Dominicana. O próximo, queremos trazer para o Brasil.
A Ford é a única a manter um esportivo V8 em produção, é uma marca que impõe respeito e tem um legado muito forte. Se eu pudesse fazer um pedido à Ford, seria: não deixe o Mustang acabar!
Angélica Cosentino é presidente do Mustang Clube de São Paulo
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