Eu soube que queria trabalhar com rally desde a primeira prova, no primeiro salto. Comecei há mais de vinte anos, por volta de 2003, competindo em um rally monomarca. E foi algo tão natural que, quando o carro acelerou na primeira reta e saltou a primeira lombada — lomba, como costumamos chamar —, fiquei completamente apaixonado. Foi aí que tudo começou. Ali eu soube o que queria para a minha vida.
Atualmente, disputo o Rally Raid ao lado do piloto Marcos Baumgart há 18 anos, competindo nesta edição do Rally dos Sertões com a equipe Sizmic Racing, em parceria com a Ford Racing, a bordo da Ford Ranger Raptor T1+.


18 anos de parceria: A dupla mais longeva
Somos a dupla mais longeva no rally nacional e conquistamos muitos títulos juntos: fomos campeões paulistas, mais de cinco vezes campeões brasileiros, campeões sul-americanos e vencemos etapas no competitivo campeonato sul-africano, além de termos recebido o prestigiado troféu Capacete de Ouro, uma homenagem da imprensa especializada.
Além de tudo isso, ainda somos bicampeões do Rally dos Sertões. Mas o nosso maior troféu não é de metal: é a sincronia total de duas mentes operando no limite a quase 180 km/h.

O rally é uma escola de vida; é um esporte no qual você é desafiado a todo instante, com altos e baixos, e que exige resiliência constante pelo próprio estilo da prova. Quem completa um Rally dos Sertões já é um vencedor, porque é realmente uma competição muito difícil e que requer muito gerenciamento, muita inteligência emocional e muita concentração... Então, ficam aqui os meus parabéns a todos que conseguem completar a prova, assim como quem completa um Rally Dakar.


O papel do navegador de rally: Gerenciando o caos a quase 180 km/h
Costumam me perguntar se eu nunca tive vontade de assumir o volante. Recentemente, em uma entrevista, fizeram-me essa mesma pergunta e respondi sem hesitar: se eu tivesse vinte oportunidades, em todas as vinte eu escolheria sentar no banco da direita para ser navegador de rally. E, em todas elas, convidaria o Marcos para ser o meu piloto. Eu amo a navegação e não trocaria de posto.

Ao contrário do que muitos pensam, a função principal do navegador não é apenas dizer para onde virar e indicar o percurso. Em qualquer grid de alto nível, vinte ou trinta duplas vão ler a planilha e encontrar o caminho. Mas apenas uma será a mais rápida. Por isso, para mim, a principal função do navegador é fazer o piloto ser o mais rápido.
O verdadeiro diferencial da navegação está na gestão das informações: repassar somente o necessário ao piloto para que ele se preocupe apenas com a direção e não perca o foco. No rally, não conhecemos o trajeto previamente. Ele é apresentado por meio do livro de bordo, chamado de road book, apenas poucos minutos antes da largada. Então, temos que lidar com o elemento surpresa a todo momento.
Como nunca passamos por aquela trilha antes, meu papel dentro do habitáculo é interpretar tudo na hora, com o carro a quase 180 km/h, comunicando-me com tranquilidade. Preciso decodificar o perigo, filtrar os dados dos sensores do carro e repassar ao Marcos comandos mastigados, rápidos e precisos. Nós combinamos alguns códigos, por exemplo, que ajudam a transmitir a informação de forma mais eficiente.
Faço isso para que o piloto não gaste um segundo de atenção com nada além de acelerar em frente. Na velocidade em que andamos, qualquer fração de segundo de dúvida custa a prova.

Rotina, físico e mente: Como se preparar para uma prova extrema
Para suportar o desgaste brutal de uma competição de rally, a preparação invisível começa muito antes do ronco dos motores:
- Preparo físico: Mantenho uma rotina de exercícios para ter um físico resistente, incluindo treinos específicos para pescoço, ombros e cintura, já que recebemos muito impacto dentro do carro. Com o corpo bem preparado, a concentração também se mantém em alto nível.
- Nutrição e hidratação: Durante as provas, adoto uma dieta bem específica para me manter bem alimentado e hidratado. O desgaste é grande e precisamos suplementar a alimentação antes, durante e depois das etapas. No rally, estamos constantemente com temperaturas elevadas – esse ano passamos por dias seguidos com 45°C.
- Ritual de concentração: Enquanto a maioria entra no carro a cinco minutos da largada, eu entro 15 minutos antes. Gosto de ficar ali comigo mesmo, revisando cada detalhe e repassando todo o checklist da planilha.

Rally dos Sertões: Nossa Copa do Mundo do Off-Road
Quando o assunto é superação, tudo converge para o Rally dos Sertões. É a nossa Copa do Mundo, o nosso Oscar. Uma prova de padrão internacional que não deve absolutamente nada a nenhuma grande competição do planeta.
Aquele logotipo com o sol dos Sertões tem um peso imenso. Trata-se de uma prova em que controlar o emocional e gerenciar os imprevistos é tão importante quanto a velocidade. Quem consegue simplesmente cruzar a rampa de chegada já é um vencedor pela grandiosidade do desafio.


Vencer o Sertões, então — algo que tivemos o privilégio de conquistar duas vezes —, é uma sensação indescritível; é lavar a alma. Sair vitorioso não depende só de você: depende das condições gerais, dos outros competidores... São muitas variáveis a controlar, e quando tudo dá certo e você alcança o topo, é absolutamente incrível.
Desafios de 2026
Em 2026, a 34ª edição do maior rally das Américas teve duração de nove dias, com largada e chegada no Autódromo Internacional Ayrton Senna, em Goiânia (GO), e um percurso total de 3.984 km, sendo 2.628 km de trechos cronometrados – muito mais do que na edição anterior.

O Rally dos Sertões tem uma fama que se justifica, pois sempre foi uma prova duríssima. A promessa era de que esta edição seria difícil do começo ao fim — e eles cumpriram. Posso dizer que foi ainda mais desafiadora: todas as etapas mantiveram o mesmo nível elevado de exigência.
A primeira etapa foi a mais longa: com 650 km, já dava indícios de como seria dali em diante. O rali passou ainda pelos estados da Bahia e do Tocantins até retornar a Goiás.



Enfrentamos também os temidos 900 km da Etapa Maratona divididos em dois dias. Para quem não conhece, na maratona o veículo entra em parque fechado e os mecânicos não podem tocar no carro: apenas piloto e navegador têm uma hora e meia para fazer todas as manutenções e reparos necessários.
Ao final desta edição, saímos com a certeza de que fizemos um ótimo trabalho, tanto na pilotagem do Marcos quanto na minha navegação. Ganhamos dois dias de provas, conquistamos bons resultados e fiquei muito satisfeito com o nosso desempenho em pista.

Tínhamos a intenção de melhorar o ritmo e estar cada vez mais fortes, e conseguimos atingir esse objetivo. A equipe foi fantástica: 92 pessoas envolvidas que trabalharam muito bem durante todos esses dias. Deixo meus parabéns a todos.
Acho que o resultado final não refletiu plenamente o nosso desempenho, porque, infelizmente, tivemos um problema com o carro. Ele é maravilhoso, mas essas coisas acontecem — inclusive imprevistos improváveis. Nós mesmos fizemos o conserto e seguimos na prova, mas isso acabou impactando o nosso resultado final.



O rally é uma escola de resiliência. Não sabemos quais surpresas estão escondidas após a próxima curva, mas sabemos exatamente quem somos, o trabalho que construímos e a força que carregamos na cabine.
No próximo ano, com certeza, estaremos ainda mais preparados e o carro estará ainda mais forte para tentarmos recuperar o título. Digo sempre que o importante é disputarmos em alto nível, mesmo quando a vitória não vem. O ano que vem promete! Foi um prazer estar aqui mais uma vez. Nos vemos na próxima poeira.
Kleber Cincea foi navegador no Rally dos Sertões da equipe Sizmic Racing / Ford Racing











