Corridas de automóveis são verdadeiramente apaixonantes. Desde criança, eu assistia, ainda pela televisão em preto e branco, às disputas daqueles carros velozes, ruidosos e com pinturas marcantes. Mesmo sem enxergar as cores reais na tela, minha imaginação tratava de torná-las vivas e vibrantes.
Estou falando do início dos anos 1960, período em que os principais fabricantes de automóveis no Brasil competiam diretamente nas pistas para provar ao público que seus modelos eram os mais confiáveis, velozes e esportivos.
A corrida como laboratório: de Henry Ford às pistas brasileiras
Essa relação entre pistas e mercado vem de berço. Vale lembrar que, no início do século XX, o próprio Henry Ford levantou a verba e a reputação necessárias para fundar sua fábrica por meio das competições.
Ele projetou e desenvolveu um veículo próprio, o célebre Sweepstakes, equipado com inovações pioneiras para a época: velas de ignição cerâmicas para garantir isolamento elétrico eficiente e um sistema vaporizador de injeção que proporcionava alimentação de combustível mais homogênea e confiável. O resultado? Henry Ford venceu adversários consagrados que sofriam exatamente com falhas de alimentação e ignição.

O nascimento da Fórmula Ford no Brasil: uma escola de monopostos
No Brasil, a Ford acelerou ainda mais essa vocação em 1971 ao criar uma categoria de monoposto voltada à formação de novos pilotos: a Fórmula Ford.
Eram bólidos compactos construídos sobre chassi tubular, equipados com motor e câmbio do Ford Corcel. Como o propulsor era instalado na traseira e a geometria do chassi exigia uma angulação extrema do semieixo, os engenheiros adotaram uma solução engenhosa: o câmbio era montado de cabeça para baixo. Dessa forma, os semieixos trabalhavam em ângulo reto com a roda, conectados ao motor por meio de uma flange com extensão do eixo-piloto para garantir o encaixe perfeito.
Pilotagem raiz: no braço
O grande atrativo da Fórmula Ford estava em sua pureza mecânica. Como não havia asas traseiras, spoilers ou qualquer recurso aerodinâmico refinado, os carros sofriam com a falta de downforce. Os pneus também não eram compostos especiais de competição: utilizavam-se pneus radiais de rua convencionais.
A aderência dependia exclusivamente do talento e do controle de quem estava ao volante — era preciso ter muito "braço". O piloto aprendia a domar as reações ariscas de um monoposto leve, fazendo da Fórmula Ford uma das maiores escolas de pilotagem da história.
Ao volante de um Fórmula Ford: a experiência na pista de Interlagos
Tive a oportunidade de guiar um Fórmula Ford em duas ocasiões marcantes. A primeira aconteceu por volta de 1986, quando eu era repórter da revista Quatro Rodas e fui para o Autódromo de Interlagos pilotar o carro de chassi JQ, utilizado pelo piloto Jindra Kraucher no Campeonato Brasileiro de Fórmula Ford.
Naquela época, a categoria utilizava o motor Ford CHT 1.6 — semelhante ao do Escort XR3. O propulsor original de rua, que gerava cerca de 82 cv, recebia preparação técnica com maior taxa de compressão, coletores dimensionados e carburação retrabalhada, entregando entre 100 cv e 105 cv.
À primeira vista, 105 cv pode parecer pouco para os padrões atuais (potência hoje comum em motores 1.2 aspirados). Contudo, o segredo residia na relação peso-potência: aproximadamente 5 kg/cv. Os monopostos pesavam cerca de 530 kg a 550 kg já abastecidos, com fluídos e o piloto a bordo.
As particularidades de pilotar um monoposto
Até aquele momento, minha experiência em corridas era restrita a carros de turismo preparados — inclusive com vitória nas 1000 Milhas Brasileiras em 1983. Pilotar um monoposto aberto era algo inédito. Começo pela posição inclinada de guiar e a visibilidade, já que o piloto fica praticamente deitado e rente ao chão: ao olhar para a frente, a visão direta é das rodas dianteiras.
Depois me impressionou a capacidade de aceleração e retomadas de velocidade, que eram extremamente boas. O carro era leve, tinha direção rápida e respostas ágeis ao comando do acelerador, então tornava-se muito divertido de ser guiado. Era até arisco.
Sem a carenagem, ao contornar uma curva, as rodas dianteiras jogavam pedriscos no capacete - eu achei estranho, claro, porque até então só tinha pilotado com a proteção de um para-brisa. No final, entendi o motivo de sempre ver fotos dos capacetes dos pilotos da época com marcas na pintura.
A consagração da categoria e o celeiro de campeões mundiais
No início dos anos 1990, voltei a testar carros da categoria, dessa vez no Autódromo Internacional de Curitiba (em São José dos Pinhais), cobrindo testes comparativos para a Quatro Rodas.
Mesmo anos depois, a essência permanecia intocada: baixo custo de manutenção, pneus comerciais, motor 1.6 CHT acoplado ao câmbio invertido de 4 marchas e foco integral na sensibilidade do piloto. Pouco tempo depois, o regulamento adotaria o motor AP 1.8 com transmissão inglesa Hewland de 5 velocidades.
A Fórmula Ford permaneceu ativa no Brasil até 1996 e cumpriu um papel fundamental: serviu de base formativa para ícones do automobilismo mundial, incluindo: Emerson Fittipaldi (que participou da prova inaugural em 1970), Nelson Piquet, Rubens Barrichello, Chico Serra, Ingo Hoffmann, Alex Dias Ribeiro, Maurizio Sala e Nelsinho Piquet.
O DNA das pistas: de Le Mans à Fórmula 1
A ligação da Ford com as competições de alto rendimento gerou momentos históricos globais:
A saga de Le Mans e o Ford GT40: Na década de 1960, após a frustrada negociação de compra da Ferrari desfeita por Enzo Ferrari, Henry Ford II determinou a criação de um bólido capaz de superar os italianos. O resultado foi o lendário Ford GT40, que dominou as 24 Horas de Le Mans com uma vitória tripla histórica em 1966, repetindo os triunfos em 1967, 1968 e 1969 — epopeia imortalizada no cinema em Ford vs. Ferrari.

A hegemonia dos motores Ford-Cosworth DFV: Entre 1967 e 1980, os propulsores V8 Ford-Cosworth impulsionaram a imensa maioria dos carros do grid da Fórmula 1, chegando a equipar mais de 95% dos competidores com confiabilidade e potência incomparáveis.

A nova era híbrida com a Red Bull Racing: Em 2026, esse compromisso tecnológico ganha um novo capítulo com a parceria entre a Ford e a Red Bull Racing (RBR), fornecendo unidades de potência híbridas de alta performance, baterias e softwares avançados de gerenciamento de energia para a F1.
"Vença no domingo, venda na segunda"
A paixão por carros e corridas move a indústria automotiva e acelera o desenvolvimento de novas tecnologias e de grandes talentos do volante. Como diz a clássica máxima nascida em Detroit: "Win on Sunday, sell on Monday" (Vença no domingo, venda na segunda). Uma filosofia centenária que continua mais viva do que nunca.
Douglas Mendonça é jornalista automotivo com mais 50 anos de experiência. Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e a Mil Quilômetros de Brasília em 2004.








