Se você entrasse hoje em nossa sala no Centro de Desenvolvimento e Tecnologia da Ford em Camaçari, na Bahia, veria uma cena curiosa: eu, sentado em uma cadeira comum no meio de um espaço amplo, usando óculos especiais e gesticulando para o vento. Mas, na minha realidade, eu estaria completamente imerso no interior de uma Ranger ou ajustando os comandos de um Mustang Dark Horse, compartilhando a cabine digital com um engenheiro que está fisicamente em Dearborn, nos Estados Unidos.
Essa ponte entre o físico e o digital é o meu dia a dia. Minha relação com a Ford começou em 1999, quando tive o orgulho de projetar os faróis e as lanternas de um SUV que revolucionou o mercado nacional. De lá para cá, muita coisa mudou e, em 2022, assumi o desafio de liderar os projetos de aplicação da realidade virtual na engenharia automotiva, especificamente voltados para a ergonomia veicular.
Há seis anos pesquiso essa tecnologia automotiva, com especialização e mestrado na área, artigos publicados e muitas horas dedicadas ao meu aperfeiçoamento. Atualmente, entre outras funções, sigo também focado em simulações de modelagem humana virtual e no desenvolvimento de protótipos em realidade virtual de alta fidelidade, garantindo que cada veículo ofereça o máximo de conforto e segurança, além da ergonomia postural ideal para quem dirige.
O papel da ergonomia veicular na prototipagem e simulação virtual
Recentemente, vivi um dos momentos mais marcantes da minha carreira: fui reconhecido no Global Vehicle Technical Awards, uma premiação global da Ford. Esse prêmio representa a validação de anos de trabalho, dedicação e, acima de tudo, paixão pela engenharia automotiva.
Essa paixão é compartilhada por um time que cresceu de forma impressionante. Desde 2022, nossa equipe quase quintuplicou de tamanho. Hoje, lidero um grupo extremamente plural de engenheiros, designers e especialistas em computação. Nosso laboratório na Bahia, que atualmente conta com diferentes estações de trabalho, em breve será expandido para dois laboratórios dedicados exclusivamente às tecnologias de realidade virtual (VR).
Mas o que fazemos, afinal, dentro desse ambiente digital?
Antes, os testes de ergonomia e usabilidade dependiam de protótipos físicos complexos. Muitas vezes, uma oportunidade de melhoria só era percebida quando o carro já estava pronto, o que gerava custos elevados e atrasos no cronograma.
Hoje, fazemos a simulação virtual de carros com modelos interativos que oferecem, em muitos casos, 99% de fidelidade na experiência de uso. A única barreira que ainda não quebramos é a sensação física do toque, como as texturas dos materiais, mas todo o resto é incrivelmente real.
Uma das nossas aplicações mais práticas é o estudo de reflexos. Avaliamos a incidência da luz solar ou artificial nas telas do painel, nas peças plásticas internas — como o volante e as portas —, bem como os reflexos gerados pela própria carroceria.
Nos Estados Unidos, a Ford possui um laboratório físico de última geração para testar esses reflexos, chamado Visual Performance Evaluation Lab (ouLighting Lab), mas ele exige o protótipo físico do veículo. Aqui no Brasil, inovamos e desenvolvemos localmente um modelo digital desse laboratório de simulação de reflexos que entrega resultados comprovadamente idênticos aos do laboratório norte-americano, reduzindo ou até eliminando a necessidade de um protótipo físico para testes.
Assim, conseguimos realizar experiências imersivas que simulam virtualmente a sensação de ofuscamento da visão gerado por esses reflexos, antecipando potenciais problemas de qualidade e agilizando um trabalho que levaria meses no ambiente físico.
Do laboratório na Bahia para o desenvolvimento de carros globais da Ford
Essa inovação transformou o Brasil em um centro de excelência global dentro da Ford. Esse foco em agilidade e sustentabilidade nos rendeu também o segundo lugar no Prêmio IEL de Carreiras, que reconheceu nosso sistema de prototipagem virtual por ser duas vezes mais rápido, mais barato e muito mais ecológico, já que evita o desperdício de materiais físicos.
Nosso trabalho vai muito além do óbvio. Usamos manequins virtuais de todos os portes — homens e mulheres, altos e baixos — para garantir que o acesso aos comandos e o conforto dos bancos atendam a qualquer perfil de cliente. Testamos desde a iluminação e os sons da tela de boas-vindas até cenários complexos de dirigibilidade.
Nossa atuação também apresenta um forte caráter inclusivo. Muito antes de o primeiro carro elétrico da Ford rodar no Brasil, nós já usávamos a realidade virtual para estudar como as pessoas interagiam com os carregadores elétricos, buscando tornar esse processo mais intuitivo. Também simulamos como seria o embarque de cadeirantes em futuros veículos autônomos e desenvolvemos um sistema inovador que traduz gestos de passageiros no banco traseiro em sinais sonoros para o motorista, pensando na acessibilidade e na comunicação de passageiros não verbais ou com deficiência na fala.
Inteligência artificial e o futuro da engenharia automotiva
O futuro da engenharia automotiva aliado à realidade virtual é ainda mais fascinante. Com a chegada da inteligência artificial (IA), começaremos a simulações ainda mais precisas da percepção humana. A IA nos ajudará a entender, com base em dados coletados e não apenas em opiniões subjetivas, se um reflexo no vidro realmente incomoda o motorista.
Além disso, a simulação virtual nos permite realizar o impossível: testar a usabilidade da tela da central multimídia enquanto o motorista está dirigindo — algo que seria extremamente perigoso em uma pista real, mas que, no ambiente virtual, é 100% seguro.
Muitos veículos que você vê nas ruas hoje carregam um pouco do nosso trabalho, da Ranger ao Mustang Dark Horse. É um orgulho imenso saber que a tecnologia desenvolvida aqui no Brasil está moldando o futuro da mobilidade global.
Fabio Freitas é Supervisor de Desenvolvimento de Produtos e Líder do time de Ergonomia Veicular da Ford na América do Sul.